terça-feira, 20 de abril de 2010

Gestão de crise empresarial - A integração entre as estratégias jurídica e de gestão

Em um ambiente econômico tão complexo e volátil como o existente nos dias de hoje, é normal que empresas passem por períodos de dificuldades e que tenham um acúmulo inesperado de prejuizos que podem levar a empresa a um nível de endividamento financeiro acima da capacidade de geração de caixa do negócio. O remédio definitivo para este problema passa pelo uso adequado das ferramentas de gestão, através das quais devem ser reavaliadas as estratégias financeiras, de clientes, de processo e de conhecimento. Na grande maioria dos casos, após a implementação disciplinada de um conjunto sério e consequente de planos de ação, a empresa reencontra o lucro e a estabilidade.



Ocorre porém que muitas vezes os gestores demoram demais a tomar as providências necessárias, permitindo que a situação da empresa se agrave além do necessário. Também acontecem situações de mercado em que ocorre a perda brusca de receitas ou um segmento inteiro de mercado fica abalado por causas incontroláveis como o nível do câmbio ou uma crise econômica de origem externa, como aconteceu recentemente no período 2008/09, que geram um impacto negativo muito rápido sobre vendas e resultados, que não é administrável com o uso exclusivo das ferramentas de gestão.



Vivemos em nosso escritório um caso concreto em que uma empresa séria e idônea perdeu um grande negócio justamente no período mais grave da crise internacional. Com a queda brusca do faturamento e com a nossa orientação, a empresa procurou seus credores, principalmente bancos, e solicitou um prazo de 120 dias para apresentar um plano de negócios que contivesse uma solução viável para o pagamento de todas as dívidas contraidas. Os bancos, ao invés de colaborarem com a solução dos problemas da empresa que viabilizariam seu próprio pagamento,não aguardaram o tempo solicitado e levaram a situação a um impasse, positivando a empresa no SPC e na SERASA e impedindo que a empresa operasse normalmente no sistema financeiro, além de dificultar o fechamento de novos negócios. E a pior notícia é a de que as posições mais inflexíveis vieram de bancos públicos, que teriam um dever maior de apoiar os empregos e os impostos gerados por estes empresários. Numa situação destas, a empresa tem o direito e o dever de se defender. Este é o caso típico em que uma ação integrada jurídica e de gestão pode tirar a empresa deste impasse negocial. Ações judiciais de cunho principalmente protelatório podem gerar o tempo necessário para o desenvolvimento de um novo plano de negócios que permita a manutenção da operação dentro de um padrão razoável de normalidade e preserve a capacidade de pagamento futuro de todos os compromissos financeiros assumidos.



O importante e que precisa ser adequadamente entendido, é que precisa haver um processo de gestão integrada da estratégia da empresa em crise que combine os possíveis resultados das ações judiciais com os ajustes de gestão necessários à solução definitiva dos problemas do negócio. Não existem soluções mágicas. Existem sim, soluções pragmáticas e concretas que podem conduzir a uma solução os impasses financeiros que colocam em risco a sobrevivência do negócio.

Alexandre Langer
alexlanger@conver.com.br

quinta-feira, 8 de abril de 2010

O mau tratamento dos Grandes dado aos Pequenos

Vários são os economistas e instituições que prevêem a retomada de um ciclo de crescimento, comparável aos anos de ouro de nossa economia, já a partir deste ano. Naquela ocasião, período de 1950 a 1980, o Brasil cresceu aproximadamente 7,0% ao ano enquanto a população somente 3,0%. Foram anos que transformaram nosso país, até então uma sociedade rural e agrária, em uma sociedade urbana e industrial. Para este novo ciclo, as previsões mais conservadoras dão conta de algo como 5,0% de crescimento, só para 2010. Os mais otimistas vão além e já falam na manutenção deste patamar para os próximos cinco ou seis anos. O desempenho do país na recente crise econômica global e as descobertas de óleo e gás no pré-sal contribuem para o fortalecimento destas previsões.

Como conseqüência imediata da retomada do crescimento econômico, o ano de 2010 deverá ser o melhor da história na geração de empregos formais, segundo nosso atual Ministro do Trabalho Carlos Lupi. Para ele, pelo menos 2 milhões de empregos com carteira assinada serão criados. O crédito, outro alavancador do crescimento, deve ter uma ampliação maior em 2010 atingindo 19,2% contra uma elevação de 16%, verificada em 2009.

Na esteira do crescimento econômico, o setor bancário brasileiro, como não poderia deixar de ser, também prevê crescimento a partir de 2010, alavancado pelo crescimento do volume de empréstimos para as empresas. A forte demanda por crédito pode ser confirmada pelo montante de recursos, quase US$ 3,5 bilhões, captados pelos bancos somente em janeiro de 2010, comparados aos US$ 4,8 bilhões captados durante todo o ano de 2009.

As boas perspectivas econômicas para os próximos anos se tornarão realidade à medida que um segmento em especial de nossa economia passar por profundas transformações: o segmento de micro e pequenas empresas. Este segmento, que compõe algo como 98% das empresas formalizadas de nosso país, é responsável por 20% de tudo que é produzido; emprega 41% das pessoas com carteira assinada; representa 4% da arrecadação tributária; participa com 43% da renda nacional e responde por 12,4% do valor total das exportações. Seu papel como alavancador do crescimento é de fundamental importância. Apesar das iniciativas por parte do governo, com a aprovação da Lei Geral e de investimentos maciços na melhor preparação dos micro e pequenos empresários, muito há de ser feito para melhorar o nível de sobrevivência e de desempenho deste segmento tão importante.

Neste contexto de melhoria do ambiente das micro e pequenas empresas, um aspecto chama a atenção pela total falta de sentido lógico. O tratamento que as pequenas empresas, em dificuldades ou não, recebem dos grandes bancos, sejam eles privados ou, e aí o fato mais sem sentido, públicos. Digo isto, pois em um cenário de crescimento, como o até aqui descrito e frente à representatividade daquele segmento como um dos viabilizadores do crescimento previsto, seria de se esperar um discurso mais alinhado com a prática e não o contrário. O que infelizmente observamos são empresários em situações de extrema dificuldade para investir e crescer em função da burocracia bancária. Apesar do discurso de que existem recursos à disposição, para o micro e pequeno empresário, é praticamente impossível acessá-los, tantas são as exigências e a morosidade para a liberação. Quando trata-se de processo de renegociação de alguma dívida, a burocracia e a morosidade são maiores e, muitas vezes com o claro intuito de provocar a desistência do empresário de buscar uma condição, não melhor mas viável, de quitar seu débito. Com este tratamento, não é de surpreender que algo como 60% das micro e pequenas empresas não cheguem ao quinto ano de sobrevivência.

É de se imaginar que, se nada for feito para melhorar a condição do segmento das micro e pequenas empresas, de grande alavancador de nosso crescimento este ficará aquém de qualquer tipo de previsão. Tais melhorias passam por trazer maior agilidade e fluidez financeira a este segmento. A melhoria da gestão dos pequenos empresários, é importante e fundamental, mas não suficiente. É necessário se aumentar o fluxo financeiro neste segmento.
Não há gestão sem crédito e nem crédito sem gestão.

Eduardo Luzardo da Silva