quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

O pequeno empreendedor e a mortalidade empresarial

A importância sócio-econômica das micro e pequenas empresas (MPEs), no cenário brasileiro, cresceu muito nas últimas décadas, quando estas passaram a desempenhar um importante papel na estabilidade e mobilidade social. Dados do IBGE apontam que as MPEs representam 99% das empresas existentes; são responsáveis por 20% de tudo que é produzido; empregam 41% das pessoas com carteira assinada; representam 4% da arrecadação tributária; participam com 43% da renda nacional e ainda respondem por 12,4% do valor total das exportações. Apesar da magnitude desse segmento, 31% delas fecham as suas portas antes de completar 1 ano de vida e 60% antes dos 5 anos. Este curto ciclo, de abertura e fechamento, traz um impacto devastador, quando reduz, de forma significativa, a capacidade potencial de alavancagem econômica desta categoria de empresas



Muitos são os fatores que levam ao fechamento precoce das MPEs. Dentre os quais, fatores fora do controle de seus gestores, como recessão econômica, falta de crédito bancário, carga tributária elevada, etc. Porém, bem mais freqüentes e impactantes estão os fatores totalmente administráveis, como falta de capital de giro, problemas financeiros, local inadequado, falta de conhecimentos gerenciais, etc. Pesquisas demonstram que o empreendedor brasileiro possui o perfil básico para abrir um negócio: coragem, disposição, persistência e dinamismo, mas falta a ele desenvolver capacidades que são indispensáveis para geri-lo, tais como: liderança da equipe, planejamento, capacidade de controle, de avaliação, de tomada de decisão, quando as coisas estão complicadas ou problemáticas, e de inovação, de pensar novas soluções e estratégias para surpreender mercados. A conseqüência imediata destas deficiências é uma gestão caracterizada por um nível de maturidade organizacional muito baixo. Os processos de planejamento e de controle são pouco formalizados e quantificados, caracterizando o perfil do dirigente mais como um estrategista que corre riscos do que o de um administrador-gestor que procura aplicar uma estratégia para minimizá-los. Ao final, é a incapacidade, do próprio empresário, de sistematizar um modelo de gestão, que propicie um crescimento perene e lucrativo, que leva seu estabelecimento ao fechamento.



O processo de decisão, nas MPEs, é individual e solitário. Diariamente o empresário é forçado a tomar todo o tipo de decisão e o faz, quase sem nenhum método ou formalização. Estas decisões são baseadas na experiência, no julgamento ou na mais pura intuição e, na maior parte das vezes, dentro de uma ótica de curtíssimo prazo. Normalmente, o empresário não tem tempo nem o conhecimento necessário para adotar, de forma sistemática, uma atitude mais analítica e estratégica, no âmbito de um modelo de gestão. Portanto, a complementação das habilidades de liderança, do conhecimento e da capacidade de gestão, destes empresários, é fator fundamental para a redução da mortalidade precoce deste tipo de empreendimento.



O modelo de desenvolvimento do empresário da MPE deve se adaptar a todo um contexto único de especificidades. Mas seria de grande conveniência a criação de um espaço/serviço, no qual o empresário pudesse, de forma planejada e organizada, esclarecer tecnicamente suas dúvidas para a implantação e melhoria sistemática de um modelo de gestão. Processo não desenvolvido e implementado por agentes externos à empresa, mas sim pelo próprio empreendedor e sua equipe. Seu desenvolvimento pessoal, estaria atrelado ao desenvolvimento, estruturação e implantação de projetos e ações específicas. Detalhadas em encontros previamente estruturados, de discussão técnica, para a obtenção da melhor solução de gestão. Ao final do ciclo o empresário teria um plano detalhado de ações, embaladas e projetos, como solução para as questões/problemas trazidos. O número de encontros, a agenda, a duração das reuniões e de seu ciclo seriam discutidas e adaptadas, como colocado anteriormente, respeitando a heterogeneidade peculiar a este segmento de empresas.



Muitos podem responsabilizar a alta carga tributária ou a crise econômica mundial pela quebra precoce das MPE. Embora tais fatores não sejam controláveis pelos proprietários de empresas, cabe a estes viabilizar as adaptações necessárias, no modelo de gestão estabelecido, às novas circunstâncias externas apresentadas. Neste contexto, os gestores das pequenas empresas devem focar seus esforços em algo que eles podem transformar e controlar, sendo agentes ativos do processo. Um melhor preparo técnico e administrativo dos micro e pequenos empreendedores pode trazer uma vida mais longa a um número maior de micro e pequenas empresas, trazendo grandes benefícios sócio-econômicos ao país.

Eduardo Luzardo da Silva
eduardo@conver.com.br